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27/07/2010  |  Geral
Em São Paulo, a "bolsinha do feijão" resiste

Jornal Valor - Agronegócios 26/07/2010

Claúdio Belli

Com as mãos cheias de feijão, compradores chacoalham o produto para saber se está seco, observam a cor para saber a qualidade e frescor. São cinco e meia da manhã no Brás e a "bolsinha de feijão" da Zona Cerealista está cheia, com feijão esparramado pelo chão, e os 27 corretores, que dela fazem parte há 10 anos, espalhados em baias nas extremidades do salão.


"Os pensadores do feijão estão ali", diz Elias Mello Saad José, diretor-tesoureiro da Bolsa de Cereais de São Paulo, órgão oficial do governo que fornece informações de preços de cereais para o governo e compradores, além de classificar e certificar produtos. "O dia em que isso acabar eu quero ver como vão ficar as coisas".


Apesar de não ser oficial, é nesse espaço que corretores expõem amostras de feijão de diferentes partes do Brasil, principalmente variações do carioca, e definem o valor do produto nacionalmente - o preço do feijão preto é definido no Rio de Janeiro.


Tudo funciona na base da oferta e procura. Na bancada de cada corretor, há pequenos saquinhos de papel com diferentes qualidades e o número de sacos de 60 quilos disponível anotado a caneta. Ainda que o consumo de feijão venha caindo nos últimos anos, todos os dias, quase dois milhões de quilos são comercializados na bolsinha.


A partir das 7 horas da manhã, os armazéns de feijão já estão a todo vapor para administrar a chegada do produto. Caminhões estacionam na frente dos grandes portões voltados para a rua e então os carregadores, ou "saqueiros", entram em ação. Boa parte dessa riqueza passa, literalmente, por suas cabeças, que equilibram os pesados sacos de 60 quilos das caçambas até as altas pilhas.


Nascido em Taquarituba, no interior de São Paulo, André Cristiano da Silva, 35 anos, trabalhava, até 2006, como bóia-fria, no meio e no fim de ano, alternando com a atividade de carregador. Apesar da experiência, quando se mudou para a zona cerealista demorou pelo menos uma semana para se adaptar ao ritmo de trabalho. Depois dos primeiros 15 dias parado, procurando emprego, começou a trabalhar tanto que nem sobrava tempo para tomar uma cerveja ou ouvir um samba. Chegava a virar 24 horas de trabalho. "Você apaga e continua andando. Você não sabe o cansaço", lembra.


O corretor Valdemar Ortega, eleito pelos corretores o administrador da "bolsinha de feijão", tem outro tipo de desafio: chegar todos os dias antes das cinco horas para organizar o início do "pregão". Além disso, precisa ficar antenado no decorrer das negociações, vendendo e atendendo o telefone para passar informações sobre preços e quantidades para gente do Brasil inteiro. Na última quinta-feira, a saca do feijão (carioca pérola/rubi/comercial) na bolsinha era cotada por R$ 85,00 a R$ 90,00.


O mercado de feijão é bastante volátil, principalmente por conta dos tradicionais altos e baixos da oferta no país. Na safra 2009/10, que está sendo comercializada, a produção está estimada em 3,34 milhões de toneladas, 4,5% menos que no ciclo passado.


Quando Ortega, nascido no Brás, começou com corretagem, em 1966, não existia um local concentrando o comércio, como a bolsinha, e o feijão era muitas vezes vendido a granel. Ele levava as amostras pelas ruas do bairro, passando nos armazéns e, às vezes, reunia-se com outros corretores em um bar.


Na época, os clientes passaram a procurar os corretores. Em mesas improvisadas para mostrar os produtos em dois ou três bares da rua Santa Rosa, Valdemar começou a dividir espaço com outros dez corretores, como Edison Geraldo Perli, que chegou, também de Taquarituba, em 1971. Perli abriu seu escritório na região em 1999, seguindo um processo de profissionalização que já ocorria havia alguns anos. Só ficou lá até o dia 2 de maio de 2000, quando foi inaugurada a bolsinha.


Como a maioria dos corretores da bolsinha, Perli começou a carreira "puxando feijão" para a zona cerealista. O corretor Nelson Lourenço, ou Topete, era caminhoneiro. Veio de Itapeva - como Taquarituba, também uma região produtora de feijão do Estado - para a bolsinha trabalhar com seu pai e depois substituí-lo. Segundo ele, essa "transição" de caminhoneiro para corretor ocorre pois o caminhoneiro conhece bem o mercado, o produtor e a zona cerealista. "É um cargo de confiança".


Mas o caminhoneiro Wilson Souza Carneiro, 51 anos, não pretende mudar de profissão. Há 30 anos no negócio de venda de feijão, ele gosta da estrada e sempre volta para Itararé para ver a esposa. Até vender o feijão, ele passa o tempo acompanhando o mercado na bolsinha, jogando baralho ou tomando cachaça. "Cheguei a ficar uma semana enroscado aqui", diz.


Quando o caminhão chega a um armazém, o motorista já está impaciente, ansioso para continuar viagem. Mas antes de se ver livre da carga, passa por uma balança destinada a cargas de feijão que chegam à zona cerealista.


Então, os carregadores fazem um furo em cada um dos sacos para comparar a qualidade, tipo, secura, cor do produto com os grãos da amostragem do contratante. Se o feijão é outro e o se o grão escureceu por conta da umidade na viagem, mandam o produto embora.


Quando o trabalho nos armazéns é grande, procura-se carregadores extras numa esquina conhecida como "pedra". André Cristiano da Silva freqüentou o ponto por oito meses até conseguir um emprego fixo com carteira assinada no armazém D. Tradição.


Por enquanto vai se manter como "saqueiro", mas pretende, daqui a alguns anos, mudar-se para Miguelópolis, na divisa com Minas Gerais, e começar um negócio próprio: abrir um lava-rápido.


Sem ter pisado numa escola, o carregador baiano Vivaldo Serafim dos Santos, 32 anos, ex-bóia-fria, não faz muitos planos além de continuar seu atual ritmo de trabalho, morando no dormitório de seu armazém junto com outros três saqueiros. José de Souza já tem 66 anos, é aposentado, mas não pensa em parar de carregar os pesados sacos de batata e cebola, produtos também comercializados nos armazéns da Zona Cerealista.


Mais diversificada, Zona Cerealista já não é a mesma

O mercado na Zona Cerealista está mudando. Ali perto, do outro lado do rio Tamanduateí, está o Mercadão e a rua 25 de Março, que atraem mais clientes para a região. O varejo cresce e uma grande variedade de produtos começa a dividir espaço com a tríade - feijão, batata e cebola - antes dominante. As grandes redes de supermercado e as tecnologias da informação reduziram a importância dos corretores e atravessadores, principalmente os de feijão.

Ricardo Cian Flone, sócio de um dos armazéns de batata da região, acredita que, para quem trabalha com batata e cebola, ainda é um bom negócio ter armazéns na Zona Cerealista e ser atravessador. Não há armazéns vazios naquela rua. Só ele vende 25 mil sacos de batata e 15 mil sacos de cebola por mês. Fornece principalmente para supermercados grandes, mas de uma loja só, e para cozinhas industriais. As grandes redes de varejo normalmente não têm intermediários.

Para o feijão, a mudança é mais intensa e perceptível. No passado, todo feijão passava pela Zona Cerealista antes de chegar aos mercadinhos da cidade. Com os grandes supermercados, a história é outra, pois estes, muitas vezes, compram diretamente do produtor.

Os armazéns do local, em grande parte empresas familiares, surgiram numa época em que os mercados também eram familiares e o Pão de Açúcar - hoje um dos maiores varejistas do país - era apenas uma padaria.

O armazém D. Tradição, além de estocar as sacarias de feijão, tem máquinas para limpar e embalar. Fornece principalmente para o feijão Caldo Nobre, um dos maiores compradores do grão da Zona Cerealista.

Daniel Dunda Xavier, que comprou o armazém há dois anos e criou a D. Tradição, começou a trabalhar no Brás em 1987 na Comércio e Importadora di Grassi Ltda, empresa que deixou a região com as recentes mudanças.

Na balança da Zona Cerealista, fica claro a diminuição de movimento de entrada de feijão. "Isso aqui está deserto", observa Antônio de Souza, responsável pela pesagem. Quando ele chegou de Itaporanga, há 35 anos, pesava manualmente de 300 a 400 caminhões por dia. Hoje, com pesagem eletrônica, não passam de 25 caminhões por dia.

Já o saqueiro André Cristiano da Silva, que passava suas primeiras manhãs em São Paulo na "pedra" com outros quarenta "saqueiros" esperando por trabalho, surpreende-se em ver que naquela mesma esquina não se reúnem hoje em dia mais do que 10.

"[A bolsinha] está morrendo", afirma o corretor Edison Perli. "Acho que toda a venda [de feijão] será direta." Ricardo Cian Flone, do armazém de batatas e cebola, só não investiu ainda no varejo de cereais e da ração humana, tão na moda atualmente, pois não achou um espaço adequado para alugar.

Cresce na Zona Cerealista o número de varejistas com produtos diversificados. Apesar da crise no ano passado, a tradicional varejista e atacadista Casa Flora cresceu 15%. Antônio Ailton Carvalhal começou o negócio há exatos 40 anos, focando em laticínios. Hoje trabalha com um grande número de produtos alimentícios e bebidas finas importados.

A Zona Cerealista está em transfomação, mas mantém sua mistura de cheiros do passado. Suas ruas, com menos caminhões do que antes, ainda têm carregadores com bolas de futebol murchas na cabeça para proteger a pele das longas horas de trabalho. Predominam os nordestinos e trabalhadores vindos do interior paulista. Os galpões são os mesmos, antigos, e na maioria das vezes tomados de pó. O mercado já foi maior, mais lucrativo, mas segue com altos e baixos, em constante transformação. E até os mais pessimistas continuam a trabalhar.



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