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23/07/2010 | Café
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Café robusta torna-se alternativa para a agricultura paulista
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Jornal Valor - Agronegócios 22/07/2010
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Alexandre Inacio
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Empresários ligados ao segmento de café e também de outras áreas de negócios decidiram ampliar os investimentos na produção do grão. São Paulo foi o Estado escolhido para a empreitada e, desta vez, a aposta é na variedade robusta, ainda desconhecida da agricultura paulista, e destinada principalmente à produção de café solúvel. São Paulo é terceiro maior produtor de café do Brasil, atrás de Minas Gerais e Espírito Santo, mas produz apenas a variedade arábica. O interesse dos empresários em introduzir uma nova variedade em São Paulo se deve principalmente à perspectiva de melhor rentabilidade do produto.
Dados preliminares da Secretaria de Agricultura paulista indicam que a produção do café robusta oferece uma rentabilidade entre 20% e 30% superior à do café arábica, mesmo com um preço 45% menor que o da variedade mais nobre. O custo inferior e a alta produtividade justificam o investimento no plantio em terras paulistas.
Com a experiência de ter sido sócio do Café do Ponto, vendido para Sara Lee, e depois presidente da trading da multinacional americana até 2005, Luiz Roberto Gonçalves é um dos empresários que acreditam no desenvolvimento do robusta em São Paulo. Atualmente vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo, Gonçalves está cultivando, junto com outros cinco produtores, 10 hectares da variedade em modo experimental na região de Lins, no noroeste paulista. A cidade já foi importante na produção de gado bovino e é o berço do frigorífico Bertin, vendido para a JBS no ano passado. Cerca de 25 mil mudas de café foram plantadas em setembro de 2009 na região de Lins e terão, neste inverno, a sua primeira florada. A expectativa é de que a primeira colheita da região ocorra no segundo sementre de 2011. "Os clones trazidos do Espírito Santo se adaptaram bem à região, e o desenvolvimento das árvores foi ótimo até o momento", afirma Gonçalves.
Outro que acredita na mudança da cafeicultura paulista é Edvaldo Frasson Teixeira, um dos sócios da Treviolo Café, empresa que já atua na produção do grão, tem uma rede de cafeterias com o mesmo nome e também fabrica máquinas para expresso. Teixeira levou o robusta para uma propriedade em Adamantina, município próximo à divisa com o Mato Grosso do Sul, onde plantou 17 mil pés em cerca de 6 hectares. Já produtor de café arábica em Matão - região forte em cana e laranja - , o empresário Pedro Moreira Sales, presidente do conselho do Itaú-Unibanco, também está investindo no plantio de robusta em sua propriedade.
O projeto de introdução da variedade robusta em São Paulo está sendo coordenado pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC). Dados do instituto indicam que o cultivo de robusta é viável economicamente em São Paulo. Além de maior produtividade e menor custo do robusta, o Estado tem 250 torrefadoras e três solubilizadoras - indústrias de café solúvel - instaladas, que absorvem aproximadamente 7 milhões de sacas por ano.
Os clones que estão sendo cultivados em São Paulo foram selecionados e trazidos do Espírito Santo pelo ICA. O órgão tem um banco de germoplasma de robusta, fruto de um trabalho realizado no passado por pesquisadores do instituto.
"Apesar de valer menos que o arábica, o custo de produção do robusta é muito mais baixo. Com isso, a produção dessa variedade passa a ser uma alternativa às culturas de cana-de-açúcar, laranja e pecuária, principalmente paras as pequenas propriedades", afirma João Sampaio, secretário de Agricultura de São Paulo.
Enquanto a produção de café robusta não se consolida em São Paulo, o Estado segue como terceiro maior produtor nacional, com expectativa de colher 4,35 milhões de sacas em 2010, conforme a última estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A oferta do Brasil para este ano é estimada em 47,1 milhões de sacas, das quais 35,3 milhões serão de arábica e 11,7 milhões de robusta.
Cultivo da variedade beneficia indústria
Além de ser uma alternativa de produção agrícola para algumas regiões de São Paulo, o cultivo de café robusta no Estado vai beneficiar indústrias torrefadoras. O Estado é o maior consumidor de café do país, e a maioria das empresas tem unidades de torrefação instaladas em municípios paulistas. Além da redução com custos de frete, as indústrias deixariam de pagar Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).
No ano passado, a indústria registrou a venda de 18,39 milhões de sacas em todo país, das quais 35% foram de café robusta. Como São Paulo concentra 40% da industrialização nacional o Estado é obrigado a "importar" a variedade do Rondônia, Bahia e Espírito Santo. "Essa é uma oportunidade de negócios para a cafeicultura paulista, mas também uma redução de custos para a indústria", afirma Nathan Herszkowicz, diretor- executivo da Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic).
Ele lembra que, além da indústria do café torrado usar robusta para compor o blend com o arábica, em São Paulo estão algumas das principais empresas de café solúvel, que têm no robusta sua principal matéria-prima. "A Nestlé está instalada em Araras, e a unidade é a maior indústria de solúvel do país", lembra.
Segundo Herszkowicz, as regiões para onde o robusta está se expandindo já produziram café no passado e têm uma infraestrutura preparada para a atividade. A produção, no entanto, era da variedade arábica, que acabou deixando de ser economicamente viável quando os custos para o combate do nematoide - parasita que se instala na raiz das plantas de onde se alimenta - subiram a patamares insustentáveis. (AI)
Contexto
O noroeste paulista já foi uma importante região produtora de café na década de 1920. A crise de 1929, provocada pela quebra da bolsa de Nova York, no entanto, fez com que a cafeicultura da região entrasse em decadência a partir dos anos 1930. A crise fez com que boa parte da produção de café migrasse de São Paulo para o Paraná, atingindo na década de 1950 seu auge no Estado do Sul. Contudo, a forte geada que atingiu os cafezais paranaenses em 1975 provocou uma nova crise na atividade. Os cafeicultores que sobreviveram decidiram migrar novamente e passaram a produzir o grão no sul de Minas Gerais, Estado que até hoje é o maior produtor nacional. "Havia um desprezo do robusta por parte daqueles que produziam o café arábica. Há tempos se fala em plantar o robusta em São Paulo. Com um custo de produção menor e bem mais produtiva, a variedade começa a chegar agora", afirma Luiz Suplicy Hafers, tradicional cafeicultor e ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB).
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