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29/11/2006 | Geral
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Debate sobre arborização e mudanças climáticas traz alerta a cafeicultores
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A arborização de cafeeiros está se tornando um estudo importante nos
dias atuais para a cafeicultura, pois com as mudanças climáticas que estão ocorrendo no mundo, há necessidade de se realizar estudos afim de se encontrar
formas adequadas de sombreamento para que não haja queda na produção cafeeira do Brasil, nem a diminuição da vida útil dos cafeeiros.
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O tema "arborização
em cafezais" não é novo. A mudança está na conjuntura cafeeira apresentada e debatida no 3º Simpósio Internacional de Café, realizado pelo Centro de Café
´Alcides Carvalho´, no Instituto Agronômico (IAC), entre 30 de outubro de 1º de novembro. O evento faz parte do Programa de Transferência de Tecnologia do
Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café (CBP&D/Café), coordenado pela Embrapa Café. A escolha do tema e suas discussões refletem uma
preocupação em preservar e equilibrar o sistema produtivo e não somente na obtenção de altas produções sem sustentabilidade. O mercado caminha para estas
exigências e o sistema arborizado ressurge no Brasil como alternativa aos desafios da elevação da temperatura global e à expansão da cafeicultura em áreas
marginais.
O debate reacendeu as reflexões sobre as vantagens da arborização em cafezais, preconizada há décadas por pesquisadores como Ângelo Paes
de Camargo e Rogério de Camargo, sendo manejo tradicional em diversos países produtores, sobretudo, na América Central. O tema ressurge com as mudanças
climáticas e suas influências na cafeicultura, apresentado pelo professor da Esalq/USP, Antônio Roberto Pereira. Ele aponta a arborização como tentativa de
recompor o ambiente e atenuar as conseqüências da elevação gradual de temperatura no planeta, que deverá alterar o zoneamento agroclimatológico da
cafeicultura rumo a áreas mais frias.
Arborização exige planejamento
Os pesquisadores do Centro Agronómico Tropical Investigación y Enseñanza
(CATIE), Costa Rica, Elias de Melo Virginio e Eduardo Somarriba, apresentaram as experiências e resultados de sistemas agroecológicos na América Central e
alertam: "O Brasil deve organizar os conhecimentos e montar uma estratégia sustentável de cafeicultura". A necessidade de definir a espécie, a melhor
distribuição espacial das árvores e formas de manejos adaptados para cada região produtora são desafios para a pesquisa. Caberá também a cada produtor
avaliar o modelo adequado para sua propriedade com base em critérios técnicos, para se evitar erros clássicos como excesso de sombra ou sua ineficiência como
fator de proteção.
Para construir um arranjo eficiente de arborização é necessário identificar as espécies adequadas para cada modelo produtivo, as
combinações, a meta em termos de produção cafeeira e diversificação e a capacidade técnica e econômica para manutenção do sistema. Em termos de
sustentabilidade, o ideal é que o modelo inclua a proteção do solo como base para estabilidade de produções. O desafio está em se evitar o uso intensivo de
insumos sem que haja diminuição da rentabilidade na área. "Enquanto o Brasil discute a importância da arborização, a Costa Rica aprimora seus sistemas e
destaca-se com modelos alternativos de comercialização com foco em sustentabilidade", ressalta Elias.
Importância do tema
A discussão do
tema, em simpósio organizado pelo Centro de Café Alcides Carvalho, do IAC, foi recebido como grande avanço pela classe científica. A idéia agora é congregar
iniciativas e conhecimentos isolados sobre os efeitos da arborização em cafezais no Brasil para criação de um pacote tecnológico de produção sustentável.
O pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), Paulo Henrique Caramori, lembrou da origem do café em ambiente sombreado e apontou algumas
razões para o predomínio de sistemas de produção à pleno sol no Brasil. Entre elas, o modelo migratório e a facilidade de abertura de novas áreas, agravado
pelo fator cultural de eliminação da mata e monocultivo trazido pela imigração européia. O fato dos estudos pioneiros terem sido focados no sombreamento
denso e o deslumbramento diante das grandes produções na chamada "revolução verde" também contribuíram para a permanência do monocultivo. "Por um tempo
esse modelo se mostrou competitivo, mas hoje existe a necessidade de um manejo mais sustentável do ambiente. A arborização é um mecanismo que favorece esse
equilíbrio. O próprio mercado sinaliza a valorização deste caminho", ensina.
Especialista em café sustentável, Maria Célia Martins de Souza, do
Instituto de Economia Agrícola (IEA), comemora a discussão do tema, secundário no Brasil e tão importante em outros países produtores. "O Brasil perdeu o
bonde e agora tem que correr atrás". Ela ressalta a importância desta linha de pesquisa, com a retomada do conhecimento defendido no passado por destacados
pesquisadores, que muitas vezes tinham seus estudos ridicularizados frente à mentalidade produtivista. "O mercado hoje não quer apenas qualidade da bebida,
mas qualidade de processos que priorizam o lado social e ambiental", completa.
O economista Luiz Maricochi, também do IEA, simplifica a necessidade
de alterar a produção cafeeira rumo à sustentabilidade: "É preciso equilíbrio de valores ao longo do tempo. Isso não quer dizer que em nome do ambiental a
produção deve ser inviabilizada. O desafio está no equilíbrio".
Novos desafios para o Brasil
De acordo com o fisiologista do IAC, Joel
Irineu Fahl, já existem restrições de temperatura inviabilizando a cafeicultura em regiões antes tradicionais produtoras. Ele reconhece a arborização como
ferramenta para uma convivência melhor do café em áreas onde a temperatura média está próximo do limite recomendado, permitindo mais sustentabilidade para a
cultura.
A proteção térmica resultante do sombreamento, no Brasil, contribui tanto para elevar a temperatura no inverno e se evitar a geada em
regiões mais frias, como para atenuar altas temperaturas em regiões marginais. Joel Fahl explica que o cafeeiro se adapta bem a diferenças de luminosidade,
enquanto apresenta limitações à temperatura. Ele concorda que a arborização deixa o cafeeiro menos vulnerável às adversidades. Mas adverte: sistemas
arborizados exigem planejamento. "É preciso verificar as necessidades de cada lavoura", destaca.
Iniciativas de consorciação
Algumas
iniciativas apresentadas no Simpósio apontam vantagens para a consorciação de cafeeiros e diferentes empecíeis arbóreas, como cedrinho, macadâmia, bananeira
e seringueira. Em Franca/SP, na fazenda São João, do grupo DaTerra, 73% da área de café é arborizada com cedrinho português (190 ha). Os argumentos
apresentados pelo diretor da empresa, Leopoldo Santanna, incluem a sensação de conforto térmico ao cafezal proporcionado pela arborização, menor risco de
geada, diminuição da irradiação solar e da intensidade de ventos, sem afetar a produtividade. A arborização faz parte da estratégia sustentável adotada pela
propriedade, que detêm os certificados Rainforest Aliance e Utz Kapeh.
A consorciação muitas vezes é motivada pela necessidade de diversificação da
atividade e renda, como a experiência de café e macadâmia, acompanhada pela Casa da Agricultura de Dois Córregos/SP e apresentada pelo engenheiro agrônomo
Marco José Perdoná. Neste caso específico, a macadâmia foi integrada à lavoura cafeeira para competir com outras atividades mais lucrativas como a
cana-de-açúcar e assegurar o desenvolvimento econômico e social da região. Além da rentabilidade na casa de R$ 8 mil/ha, o cultivo consorciado da macadâmia
não atrapalha os tratos culturas do café, a colheita é realizada em épocas diferentes, com melhor aproveitamento da mão-de-obra.
Com a banana em
consórcio com o café as vantagens também destacam o fator econômico. Segundo dados apresentados pelo produtor Tarcísio Teotônio Loyolla, a cultura da banana
que começou como alternativa de diversificação e manejo contra Phoma, tornou-se prioritária com o tempo e avaliação do custo/benefício. Em áreas onde cultiva
a banana nanica, por exemplo, teria que colher 132 sacas de café por hectare para atingir a mesma rentabilidade.
O pesquisador do Iapar, Jomar da
Paes Pereira, acrescentou outras vantagens em sua explanação sobre os estudos de consorciação de café com seringueira no Estado do Paraná. Ele cita o maior
controle dos efeitos negativos do vento, proteção contra geadas, controle de erosão, melhora das propriedades químicas e físicas do solo, redução da pressão
sobre a vegetação nativa e preservação da fauna. Ele lembrou que parcela de experimento a pleno sol foi dizimada pela geada de 2000, enquanto parcela
sombreada permaneceu sem prejuízo.
Aumento da qualidade
O extensionista e consultor do CBP&D/Café, Roberto Antônio Thomaziello, acrescenta que
sistemas arborizados bem manejados estendem mais o período de maturação, que uniforme traz melhoria de qualidade aos grãos cereja. O climatologista do IAC,
Marcelo Bento Paes de Camargo, apresentou um resgate histórico com curiosidades sobre o tema. Já em 1945, Rogério de Camargo, da Sessão de Café da Secretaria
da Agricultura, apontava vantagens do sistema arborizado comparado a pleno sol. Entre elas, referência sobre a uniformidade da maturação, garantindo melhor
qualidade da bebida, com aumento no tamanho, peso e rendimento dos frutos.
Objetivo atingido
Na avaliação dos organizadores do Simpósio, Luiz
Carlos Fazuoli, Roberto Thomaziello e Sérgio Parreiras Pereira, o evento atingiu o objetivo de provocar a reflexão sobre o tema e os novos desafios da
cafeicultura. O debate serviu ainda para aproximar os pesquisadores que buscam sistemas sustentáveis de produção e maior organização do conhecimento
disponível. Fica o desafio de incentivar o desenvolvimento de pesquisas nesta temática e promover a transferência de tecnologias e experiências ao setor
produtivo.
Cibele Aguiar
Embrapa Café
www.embrapa.br/cafe
cibele@sapc.embrapa.br
06/11/2006
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